Professores de Esquerda?

#educação, #política

A internet tem se tornado um reduto ideal para hipóteses de todo tipo. Diversas afirmações são popularizadas como se concluíssem um exercício mental de alta complexidade, quando apenas levam de modo primário para debate questões que necessitam mais do que cinco minutos de palavras milagrosas. Atualmente, uma das mais replicadas é a ideia de que todos (ou quase todos) os professores são alinhados com a ideologia de esquerda. Será verdade? Como confirmar tal informação?

Conforme o reconhecimento público do autor ou a concordância que cada pessoa faz com afirmações como “todos os professores são de esquerda”, encontra-se um terreno fértil para torná-la uma verdade dogmática. Entretanto, concluir com tal veemência que um grupo tão grande de indivíduos possa se “converter” a um posicionamento de padrão esquerdista apenas por conta da profissão escolhida é um tanto quanto esquisito. Afinal de contas, como definir o que é um professor de esquerda?

Na maneira mais depravada possível o “professor de esquerda” seria aquele que se aproveita da sua condição para promover em sala de aula algum tipo de propaganda acrítica do socialismo/comunismo. Ele se expressa através de uma fábula que torna estas teorias indiscutíveis para uma pessoa que se considera “boa”. De quebra já conduz o marketing político-partidário da legenda que acredita representar religiosamente estas ideias. Transforma-se assim uma massa de estudantes em militantes fervorosos. Missão cumprida.

Além de desconsiderar o todo social e político que envolve este estudante, é nítido que o comportamento citado anteriormente não se relaciona diretamente com a conclusão “todos os professores são de esquerda”. Um exercício lógico é suscitado:

  • É possível afirmar que pelo menos um docente se utiliza deste tipo de atitude? Muito provável que sim.
  • Seus alunos se tornam uma massa militante de esquerda? É difícil acreditar.
  • A maioria dos professores é de esquerda? nã… si… Prosseguindo a discussão.

No Brasil, há cerca de 390 mil professores no ensino superior e 2,2 milhões na educação básica. A maioria não atua em disciplinas que exigem o desenvolvimento da competência política, sendo trabalhadas em áreas ligadas às ciências humanas, educação e relacionados.

Para tanto, o tema incide de modo diferente em cada divisão de educação. Na educação básica (fundamental e médio), o conteúdo tratado até, pelo menos, o sétimo ano, apenas tangenciam a ideologia. Nos anos seguintes, a abordagem de política tende a se concentrar mais na construção da argumentação e do posicionamento, do que simplesmente ser contra ou a favor de qualquer polêmica (incitando uma ou outra). Um estudante repetidor de teorias utópicas facilmente percebe que não está tratando de algo do seu tempo ou não resistira a alguns poucos questionamentos. O papel dos professores de ciências humanas neste ciclo é pouco expressivo para conduzir a uma formação teoricamente embasada em teorias de esquerda.

Em relação ao ensino superior, a política se insere em diversos momentos e disciplinas. Porém, não se pode atestar por simples imaginação que todos os docentes se alinhem à esquerda. Há um ou outro professor que busca tornar um espetáculo circense a sua “crítica” ao capitalismo. Neste quesito, há uma imensa confusão acerca do papel da universidade, mas não invalida a necessidade de cientistas humanos dos mais diversos campos problematizarem a forma de organização produtiva e social.

Há quem diga que professores são inconscientes de suas posições políticas, fazendo com que reproduza apenas um discurso pronto de esquerda. Acredita-se assim em uma impossibilidade do docente em ajustar seu próprio itinerário de estudos, mas nada atesta que os seus problemas de formação resultem imediatamente em se tornar de esquerda. Com a mesma superficialidade pode-se afirmar o contrário. Então:

Todos os profissionais da educação são conscientes de sua posição ideológica? Muito provável que não.

Existem professores de esquerda? Sim e também de direita.

O intuito de promover a ideia do tal “professor de esquerda” é apenas uma maneira velada de demonizar uma vertente ideológica presente na educação básica e semi-barulhenta na universidade. É mais simples a divisão entre a ideologia boa e a ideologia ruim do que fornecer subsídios para o desenvolvimento político dos estudantes. Apenas troca-se de crença (sim, crença), pois o que menos se apresenta são propostas de educação que se mostrem viáveis e compatíveis com o futuro.

 

Mas, afinal, é a maioria dos professores de esquerda ou não?

 

Texto de Ronaldo Noguez

Referências:

Censo educação básica 2013

Censo educação superior 2013

Censo educação superior 2015

Sobre ideologia de esquerda nas universidades

Universidade é um espaço para a doutrinação ideológica?

Matriz Referência Enem

Pcn ensino fundamental

Pcn+ ensino médio

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